Cores da Terra
Da terra que brota o alimento e prov?m ? fam?lia, tamb?m se extrai cores. Em tons de amarelos, vermelhos, marrons, rosas, brancos, pretos e mais uma gama de cores surgem tintas da mistura de terra, ?gua e cola. Al?m de econ?mica e natural, a t?cnica ? um retorno ao antigo costume de usar o solo como mat?ria-prima para fazer casas de adobe, barrear fog?es-?-lenha e outras pr?ticas.
?O passado tem hist?ria, tem mem?ria. N?s podemos comprar, mas a natureza ensina a gente a fazer? diz Pedro Eug?nio Quirino, um tintor curioso, falante e satisfeito com o trabalho que vem divulgando h? quase dez anos. O primeiro teste foi em sua pr?pria resid?ncia. Acostumado a trabalhar com a tinta convencional, no inicio, percebia a descren?a das pessoas. Hoje, a tintura com terra est? em igrejas, casas e condom?nios fechados que receberam um toque de seu trabalho. ?Ser tintor ? uma arte da natureza, ? colher dela para produzir tinta? declara seu Pedrinho.
Ele e mais tr?s tintores fazem parte do projeto Cores da Terra, coordenando pelo agr?nomo e professor An?r Fiorini de Carvalho, integrado tamb?m por estudantes da Universidade Federal de Vi?osa. Pesquisas com tipos de solos e experimenta??o de materiais s?o realizadas pela equipe que busca tamb?m apresentar a tinta ? base de terra pela regi?o. ?Nossa inten??o, muitas vezes, mais do que ensinar, ? fazer as pessoas lembrarem do que j? fizeram ou viram seus pais e av?s fazerem. Ao produzir e aplicar a tinta, tentamos mostrar que o resgate cultural desse uso anterior ? poss?vel?, diz Fiorini.
Com a autoridade de quem tamb?m experimentou a tintura em sua casa, ele garante que a qualidade e durabilidade n?o deixam nada a desejar em rela??o ?s convencionais. Mas, o sucesso da tinta ? base de terra, vai depender tamb?m da escolha do solo, do tipo de parede e da aplica??o adequada.
Pintando com a terra
Tanto terras argilosas quanto arenosas podem ser usadas para fabrica??o da tinta. A escolha vai depender do objetivo. A argila produz uma parede de textura fina e lisa, enquanto que, solos arenosos formam superf?cies ?speras, adequadas para paredes externas ou acabamentos com efeitos texturados.
Para escolher a cor da casa ? bom conhecer o ambiente, explica o professor. Onde h? muita mat?ria org?nica como folhas, restos de animais, a??o de minhocas, a tend?ncia ? encontrar solos escuros, resultado da a??o dos ?cidos ?ricos, que d?o colora??o preta ? terra. Amarelos e brancos s?o mais facilmente encontrados em ambientes que acumulam umidade como brejos, beiras de rios, lagos ou mais pr?ximos ? len??is d??gua. Nestes lugares, a presen?a de ?gua retira do solo o ?xido de ferro, respons?vel pela colora??o avermelhada da terra. ? por isso que em ambientes que n?o acumulam ?gua como encostas, altos de morros, ou seja, em superf?cies secas, ? comum encontrar solos vermelhos.
A partir destas cores, at? agora, surgiram mais de 24 tonalidades verificadas pela equipe do Cores da Terra, que j? ?tintou? mais 50 constru??es, entre casas, igrejas, galp?es em zonas rurais e urbanas da regi?o de Vi?osa. ?Tem que fu?ar? incentiva An?r. ?Na hora de furar um po?o ou mexer na estrada, o interessante ? aproveitar para conhecer a terra?.
Outro componente que pode ser adicionado ? tinta ? base de terra ? a cal, que ajuda a regular a umidade da parede, permitindo que ela respire e reduzindo a incid?ncia de fungos e mofo, al?m do calc?rio agr?cola, usado para clarear a tinta. Os tintores experimentam tamb?m a cola caseira, chamada de grude, no processo de fabrica??o. Feito ? base de polvilho azedo e soda c?ustica, substitui a cola branca, tornando o produto ainda mais barato.
A economia ? um grande atrativo da t?cnica. Segundo o tintor Paulo C?sar dos Santos, uma lata de 18 litros de tinta ? base de terra, suficiente para pintar superf?cies entre 70 e 90 m? gira em torno de R$ 20,00 com a cola branca e R$ 4,00 se feita com o grude. O que aumenta ? gasto com m?o-de-obra, pois a busca de terra e preparo da tinta consomem mais dias. Mas, na conta final, considerando-se o pre?o da tinta convencional, o processo natural sai mais barato, garante ele.
Cor social no cerrado mineiro
?At? o natal quero estar com minha casa tintada? diz a agricultora Maria Rita da Silva. Animada, ela quer tirar o cinza da parede rebocada e dar vida ? sua casa e ainda realizar mutir?es com seus vizinhos. Junto com outros 45 moradores da regi?o noroeste de Minas, ela participou da oficina Cores da Terra, que mostrou como escolher e retirar o solo, preparar a tinta e as paredes e tamb?m apresentou dicas de aplica??o.
Direcionada para moradores de assentamentos da reforma agr?ria, em dois dias, assentados de v?rios munic?pios e t?cnicos extensionistas foram at? o projeto de assentamento Belo Vale, a 50 km de Paracatu, no final de novembro. L?, conhecerem as t?cnicas e materiais apresentados pela equipe formada pelo professor An?r Fiorini e os tintores Pedro Quirino e Paulo C?sar, um trabalho, segundo eles, norteado pelo resgate cultural e o est?mulo ? autonomia dessa popula??o.
O casal Lourival Ara?jo e Eleuza Caldas garante que o aprendizado ser? muito aproveitado. Al?m de pintar a casa no assentamento, pretendem fazer da tinta mais uma mat?ria-prima no artesanato que fazem com caba?as e passar o que aprenderam para os outros. ?Isso ? ver o tanto que a terra ? m?e, ela nos d? tudo? afirma dona Eleuza, que viajou mais de 100 km com o marido para participar da oficina.
O Cores da Terra integra tamb?m o Programa de Assessoria T?cnica, Social e Ambiental ? Reforma Agr?ria (Ates), que atua em mais de 80 munic?pios mineiros, percorrendo 204 assentamentos para levar capacita??o e promover o desenvolvimento sustent?vel sob a coordena??o do Instituto Nacional de Coloniza??o e Reforma Agr?ria (Incra).
De acordo com Jose Ambr?sio Ferreira Neto, articulador do ATES, no caso do Cores da Terra, a inten??o ? que os assentados economizem ao receberem o cr?dito para aquisi??o de materiais de constru??o, recurso que, atrav?s do INCRA, destina ? fam?lias assentadas R$ 5 mil reais para constru??o e reforma de casas. ?Como geralmente o dinheiro n?o d? para terminar as moradias, qualquer economia ? bem vinda? afirma o agricultor Ad?o Em?dio da Fonseca, assentado da cidade de Guarda-Mor, entusiasmado com a quantidade de cores que viu surgir durante a oficina.
?Muitos assentados tem vontade de arrumar suas casas, mas falta recurso. E poder pintar a casa, faz com que sua auto-estima melhore? diz Celso Ant?nio Alves, t?cnico da Emater de Lagoa Grande, que pretende desenvolver o que aprendeu em assentamentos onde trabalha para servir de exemplo.
Kmilla Moreira.