Artigo Terra: conservar para (sobre)viver

 

Eu sou a terra, eu sou a vida.

Do meu barro primeiro veio o homem.

De mim veio a mulher e veio o amor.

Veio a √°rvore, veio a fonte.

Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.

Sou o chão que se prende à tua casa.

Sou a telha da coberta de teu lar.

A mina constante de teu poço.

Sou a espiga generosa de teu gado

e certeza tranquila ao teu esforço.

Extra√≠do de O C√Ęntico da Terra, de Cora Coralina.

Em abril comemoramos duas datas importantes para todos que trabalham com solos no Brasil. Dia 15 √© o Dia Nacional da Conserva√ß√£o do Solo e h√° 50 anos comemora-se no mundo inteiro o Dia da Terra em 22 de abril. Comemora√ß√Ķes em meio √† crise sem precedentes causada pela pandemia do Covid-19 s√£o muito dif√≠ceis, com o mundo sofrendo a pior crise econ√īmica e de sa√ļde em um s√©culo. Mas, ainda que a excepcionalidade da crise nos cause desalento e desesperan√ßa, este pode ser um momento importante para refletir e avaliar nossas a√ß√Ķes como profissionais e como cidad√£os. ¬†Os solos s√£o o foco dos estudos e do trabalho da grande maioria de n√≥s integrantes da Sociedade Brasileira de Ci√™ncia do Solo (SBCS). E a vida na Terra est√° intimamente relacionada com os solos.

Terra na língua portuguesa pode se referir ao planeta em que vivemos; ao nosso lugar de origem (pátria, terra natal); à parte sólida da superfície da Terra, por oposição ao mar; à uma propriedade rural (minha terra, meu sítio); e ao solo, onde é possível cultivar plantas, criar animais, produzir alimentos, madeira, fármacos e outros produtos essenciais à vida na Terra.

O solo √© a principal base para atividades humanas. √Č fonte direta ou indireta dos nutrientes que alimentam os seres vivos, cuja presen√ßa e diversidade √© uma caracter√≠stica inerente ao planeta Terra, pelo menos at√© o momento. O solo tem papel fundamental na produ√ß√£o de biomassa, abriga as partes subterr√Ęneas de plantas e nele podemos encontrar uma grande variedade de organismos vivos, como bact√©rias, fungos, algas, protozo√°rios, minhocas, insetos e mam√≠feros. Por ser poroso, com poros de diferentes tamanhos, o solo permite tanto a circula√ß√£o quanto a reten√ß√£o de √°gua; atua tanto como reservat√≥rio, quanto como filtro de toda a √°gua que por ele passa. No solo encontramos materiais com origem org√Ęnica e mineral, em estado s√≥lido, l√≠quido ou gasoso, e nele ocorrem rea√ß√Ķes e processos qu√≠micos, f√≠sicos, biol√≥gicos, geoqu√≠micos, bioqu√≠micos e mineral√≥gicos.

O solo tem papel importante nos ciclos biogeoqu√≠micos, √© fonte de mat√©ria prima e abriga recursos geol√≥gicos e arqueol√≥gicos fundamentais para a compreens√£o da evolu√ß√£o da Terra e da vida. Em ambiente tropical, os processos de altera√ß√£o s√£o mais intensos, as chuvas podem ser muito erosivas e a biodiversidade exerce o papel fundamental de manter o equil√≠brio do sistema solo-clima. Rompendo-se esse equil√≠brio, principalmente por meio da elimina√ß√£o da vegeta√ß√£o nativa diversificada e substitui√ß√£o por extensas √°reas de monoculturas de ciclo curto que exploram apenas a camada superficial do solo, s√£o desencadeados processos que causam grandes preju√≠zos. ¬†Esses processos n√£o surgem apenas na forma de eros√£o ou de aumento da incid√™ncia de pragas e doen√ßas, cedo ou tarde surgem tamb√©m preju√≠zos econ√īmicos e sociais, como perda de produtividade, aumento de gastos com insumos e migra√ß√£o de popula√ß√£o rural para centro urbanos.

Portanto, proteger o solo √© manter a sua capacidade de reproduzir a vida, de armazenar e reciclar nutrientes, e de decompor a mat√©ria org√Ęnica. Conservar o solo √© fundamental porque contribui para regular o fluxo de √°gua e o ciclo hidrol√≥gico e manter sua fun√ß√£o de filtro para elementos e subst√Ęncias, garantindo a qualidade das √°guas superficiais e subterr√Ęneas. Usar o solo adequadamente, em especial com atividades agr√≠colas, permite produzir alimentos, f√°rmacos, fibras, madeira, e material para uso na ind√ļstria.

A agricultura √© altamente dependente do clima e as mudan√ßas clim√°ticas em curso1 modificam a produtividade e os ganhos financeiros no setor agr√≠cola. No Brasil, s√£o muitas as experi√™ncias bem-sucedidas e in√ļmeros os profissionais com conhecimento t√©cnico robusto em sistemas agropecu√°rios produtivos. Essas experi√™ncias e conhecimentos evidenciam que quanto mais diversificado √© o sistema agr√≠cola, maior a sua fun√ß√£o ecossist√™mica e a sua resili√™ncia. O uso sustent√°vel dos solos e a recupera√ß√£o de vegeta√ß√£o nativa e de √°reas degradadas s√£o a√ß√Ķes fundamentais para restaurar o equil√≠brio e a sustentabilidade do ambiente rural e urbano.

Atualmente, o pa√≠s conta com pol√≠ticas p√ļblicas como o Plano Setorial de Mitiga√ß√£o e de Adapta√ß√£o √†s Mudan√ßas Clim√°ticas para a Consolida√ß√£o de uma Economia de Baixa Emiss√£o de Carbono na Agricultura (Plano ABC) e o Plano Nacional de Recupera√ß√£o da Vegeta√ß√£o Nativa (Planaveg), que s√£o exemplos para diversos pa√≠ses de como estimular a conserva√ß√£o do solo e proteger a Terra, garantindo a competitividade e a sustentabilidade do setor agr√≠cola2. Esses planos favorecem a ado√ß√£o de sistemas integrados (lavoura-pecu√°ria, lavoura-floresta, pecu√°ria floresta e lavoura-pecu√°ria-floresta), que s√£o menos suscept√≠veis a varia√ß√Ķes do clima e t√™m o importante papel de otimizar o uso de recursos naturais e poupar terra, al√©m de possu√≠rem maior valor agregado. Esses planos estimulam tamb√©m sistemas agroflorestais, florestas plantadas com esp√©cies nativas ou ex√≥ticas, e a recupera√ß√£o e restaura√ß√£o ecol√≥gica, que garante o ciclo hidrol√≥gico, o fornecimento de √°gua e de alimento para o meio rural e urbano, e mant√©m a vaz√£o dos cursos d‚Äô√°gua.

Que possamos nos unir em torno do compromisso de proteger o ambiente em que vivemos.¬† Portanto, √© necess√°rio que profissionais das diferentes √°reas do conhecimento, e em particular os da Ci√™ncia do Solo, incentivem a ado√ß√£o de modelos de desenvolvimento justo. Conservar solos em √°reas rurais implica em utiliz√°-los dentro dos limites de sua capacidade e em adotar sistemas de produ√ß√£o de baixo impacto e que contribuam para mitigar os impactos j√° causados. Conservar solos urbanos exige que adotemos pol√≠ticas inclusivas, que assegurem o direito a terra nas √°reas rurais e a moradia adequada nas √°reas urbanas, n√£o empurrando popula√ß√Ķes mais pobres para as √°reas mais fr√°geis ou insalubres. Que possamos compreender que doen√ßas atingem ricos e pobres, mas s√£o os pobres os mais penalizados, porque s√£o os mais fr√°geis.

Vamos aproveitar esta pandemia para refletir e ajustar nosso olhar para a Terra, para a nossa terra e para os solos. Que todos possamos compreender que somos seres inteligentes e poderosos, mas um v√≠rus pode matar milh√Ķes de n√≥s em alguns meses. Nossos conhecimentos e tecnologias podem nos levar muito longe e muito rapidamente, mas se n√£o respeitarmos o ambiente, n√≥s √© que perdemos.

A autora, Maria Leonor Lopes-Assad, é professora aposentada da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

1- IPCC, 2014. IPCC. Climate Change 2014: Mitigation of Climate Change. Disponível em: https://www.ipcc.ch/report/ar5/wg3/. Acesso em: abril 2020.

2- Assad, E. D. et al. Papel do Plano ABC e do Planaveg na adaptação da agricultura e da pecuária às mudanças climáticas. Working Paper. São Paulo, Brasil: WRI