Emergência climática e carbono no agro brasileiro

Artigo de Opinião

Ladislau Martin Neto ¹

Introdução

A agricultura, fundamental do ponto de vista social, econômico e ambiental, é responsável por cerca de 20% das emissões antropogênicas de gases do efeito estufa (GEE) em todo o mundo. Os principais GEE de origem antrópica são dióxido de carbono ou gás carbônico (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). Para contextualizar a questão  “mudanças climáticas” vamos a alguns fatos: globalmente os combustíveis fósseis (derivados do petróleo) são responsáveis por 75 % das emissões dos GEE que são considerados os principais responsáveis pelo aumento de temperatura do Planeta e pelas mudanças climáticas globais; no Brasil o inventário de GEE tem composição muito distinta da média global, e aproximadamente 75 % das emissões estão associadas às mudanças de uso da terra (basicamente devido aos desmatamentos- ~ 50%) e ao setor agropecuário (~ 25%). Assim, o agro brasileiro está associado ao fato de sermos o 5º maior país emissor do Planeta, com 3,1% das emissões globais.

É importante ressaltar, entretanto, que o próprio agro é um dos mais afetados pelas mudanças climáticas globais, pois se trata de uma “indústria à céu aberto”, sujeito aos riscos severos associados ao clima. No caso brasileiro mais de 90% da produção agropecuária é dependente das chuvas. Também ondas de calor mais frequentes e de maior intensidade criam desafios adicionais para a produção agropecuária, entre outros aspectos. Assim, a agropecuária é ou pode se tornar uma das maiores vítimas das mudanças climáticas. Portanto o enfretamento e a contribuição para a mitigação e adaptação às mudanças climáticas do setor agropecuário brasileiro é imperativo!

2- Ações Relevantes para o Presente e Futuro

2-1.  Desafios das Emissões e o Papel do Solo

Na busca e no estímulo à mitigação de GEE e adaptação às mudanças climáticas no agro o país investe em pesquisas há pelo menos 25 anos. Por meio de trabalhos de pesquisadores e instituições públicas de P&D&I e com acompanhamento das tendências globais foram identificadas necessidades do monitoramento e inventários dos GEE no agro. Na Embrapa, que em grande medida foi pioneira nessa agenda, isso foi estabelecido e apoiado por forte cooperação internacional, e com aumento de recursos financeiros na época, para aquisição de novos equipamentos e de novas infraestruturas para laboratórios e campos experimentais, concurso para contratação de nova geração de pesquisadores e analistas entre outros. Também foi fundamental o estabelecimento de redes de pesquisas, contando com imprescindíveis cooperações com universidades do país e exterior, outras instituições de pesquisas e com o setor privado, conhecidas como Redes Pecus, Fluxus e Saltus, associadas à pecuária, à agricultura e às florestas, respectivamente. Outras instituições avançaram muito e também geraram resultados de impacto e implantaram “facilities” e ativas redes de cooperação, mais recentemente, como o caso do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical-CCarbon- liderado pela USP/ESALQ, com apoio da FAPESP, o INCT-ABC, liderado pela UFRGS/Departamento de Solos, com apoio do CNPq/MCTI, entre outras. E a partir de 2020 o projeto PRO Carbono, liderado pela empresa Bayer, está monitorando 1.800 propriedades rurais em áreas com grãos, e desenvolvendo pesquisas e gerando resultados relevantes em cooperação com Embrapa e Universidades.

E embasado em pesquisas e resultados publicados o governo brasileiro, através do MAPA, estabeleceu o Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono- Plano ABC, a partir de 2010 e com metas para 10 anos. As metas já foram publicadas com excedentes e os resultados publicados. Esse Plano foi sucedido pelo Plano ABC+, que inclui práticas agropecuárias como potencial mitigador de GEE e de adaptação às mudanças climáticas, com meta de mitigar 1,1 bilhão de toneladas de CO2eq, até 2030.

2-2. Remoção de Carbono da Atmosfera e Sequestro no Solo

O agro é um dos poucos setores da economia global que, além de se empenhar em reduzir as suas próprias emissões de GEE, pode realizar remoções e estabilizar o carbono no solo e na biomassa de florestas e em culturas perenes.

Assim o Brasil com um território continental (850 milhões de hectares) com área de preservação florestal superior a 50% de sua área total, e com solos que se tornaram aptos para sequestrar carbono no solo, é considerado, globalmente, um dos principais players senão o maior na chamada “naturebased solutions” para a mitigação de GEE, proposta que foi objeto de muitos painéis e debates na COP 30, em Belém/PA.  

Os resultados estão fartamente publicados já há bom tempo pelos cientistas do Brasil e mesmo do exterior. Também vale ressaltar que nos vários biomas do país com uso adequado de calcário e fertilização, da prática de plantio direto, uso de plantas de cobertura, entre outras, têm sido demonstrado situações com aumento do estoque de C no solo, quando comparados com uso do manejo convencional, com aração e gradagem dos solos, a qual era a prática predominante há algumas décadas no Brasil. Ou seja, uma agenda muito positiva e bem distinta de 30 anos atrás se descortinou para a questão do C no solo no Brasil. Temos que manter e avançar as pesquisas inclusive no âmbito de propriedades rurais (“on-farm research”) visando consolidar e gerar condições de projetos de créditos de carbono no solo, como em agricultura conservacionista agricultura regenerativa, uso de bioinsumos, sistemas integrados ILPF, etc.

Por sua vez há demandas por simplificação e redução de custos com métricas para o mercado de carbono no solo, e isto é um desafio global, e a ciência brasileira tem gerado algumas contribuições recentes, como: viabilização de equipamentos baseados em técnicas espectroscópicas como LIBS (baseada no uso de laser) e NIRS para quantificação de carbono no solo, em larga escala, já foram desenvolvidos por dois dois Centros da Embrapa, Instrumentação e Solos, respectivamente. Esses equipamentos já foram transferidos para empresas privadas comercializarem análises de C nos solos, com análises mais rápidas e com custos menores que o método de referência internacional com Analisador Elementar CHN, e aceitos pela certificadora internacional Verra. Em outros resultados recentes com uso da técnica LIBS mostrou-se a possibilidade de determinar a densidade do solo com amostras de solos deformadas, e/ou com uso de equações de pedotransferência, como alternativas para simplificar o processo e reduzir custos com métricas de carbono. Mas o tema das métricas tem ainda oportunidades para inovações adicionais, no Brasil e globalmente.

2.3- Pesquisas em adaptação e resiliência para a Emergência Climática

É de elevada prioridade o Brasil avançar e investir muito na sua ciência para fazer frentes aos imensos desafios dos impactos crescentes das mudanças climáticas na agropecuária. Assim muitos cientistas e lideranças usam o termo Emergência Climática, pois é disso que estamos tratando e no nosso caso poder manter a segurança alimentar do Brasil e do próprio Planeta.  No contexto amplo do agro podemos, de forma concisa, considerar alguns tópicos importantes como:

– Ampliação do uso de técnicas avançadas de melhoramentos genéticos vegetais e animais, com o uso da tecnologia de edição gênica (não é transgenia) o CRISPR, para aumentar a capacidade de resistência a seca, a ondas de calor, a alagamentos, etc;

– Desenvolvimento e uso de bioinsumos no contexto das mudanças climáticas: como fixação biológica do nitrogênio, já em uso em 40 milhões de hectares, mas com novos resultados para remobilizar nutrientes do solo, práticas de controle biológico e outros. O manejo do microbioma da rizosfera e da biologia do solo também surgem como possibilidades relevantes para aumentar a resiliência dos sistemas de produção;

– Os nossos solos – tropical e subtropical – requerem o uso continuado de fertilizantes, e somos altamente dependentes da importação dos insumos, e isto configura um risco imenso para o agro brasileiro. Buscar fontes alternativas seguras de fertilizantes no próprio país, como em rochas, bem como na imensa quantidade disponível de resíduos de origens agrícola, agroindustrial, de mineração e urbano, é uma prioridade;

– Sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta (ILPF) ou sistemas agroflorestais, que propiciam diversidade de produtos, de safras e de mercado para os produtores rurais, promovem uso mais eficiente de fertilizantes e condicionadores do solo, aumentam o conteúdo de matéria orgânica do solo, entre outros benefícios;

– Pesquisas sobre novas opções de culturas para cobertura/plantas de serviço é essencial para o avanço da saúde dos solos no Brasil. A diversidade de plantas de cobertura aumenta os estoques de carbono no solo, favorece a biodiversidade do solo e otimiza a fertilidade química e física. Ao fortalecer esses processos fundamentais, as culturas de cobertura desempenham um papel decisivo na adaptação e resiliência dos sistemas agropecuários brasileiros diante da Emergência Climática.

3- Da revolução agrícola à revolução climática

A pesquisa agropecuária do Brasil tem muito a se orgulhar e celebrar, mas também muito a planejar, antever e fazer, em um futuro com novas e impactantes variáveis, uma delas de imensa magnitude: as mudanças climáticas globais! O Brasil e o Mundo precisam de soluções e estamos em situação de Emergência Climática, e uma nova revolução precisará ser realizada: a revolução da adaptação climática para o agro!

Agradecimentos: A Diretoria da SBCS e Membros da Divisão 2 – Processos e Propriedades do Solo, Comissões de: Biologia do Solo, Física do Solo, Mineralogia do Solo e Química do Solo.

¹ Pesquisador Embrapa Instrumentação, Vice Coordenador da Comissão de Química do Solo/Divisão 2– Processos e Propriedades do Solo, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, Editor Assistente do “European Journal of Soil Science”.

Nota

As opiniões expressas neste texto são de responsabilidade do(s) autor(es) e não refletem, necessariamente, o posicionamento oficial da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS).

Como citar este texto

Caso este conteúdo seja utilizado como referência em trabalhos acadêmicos ou científicos, recomenda-se seguir o estilo de citação adotado pela Revista Brasileira de Ciência do Solo (RBCS), disponível nos gerenciadores de referências como o Mendeley.

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Exemplo: 

DENNY, D.M.T. Lei do Solo da UE estabelece que o solo saudável é a próxima onda regulatória. Blog SBCS, Viçosa, 20 nov. 2025. Disponível em:  https://www.sbcs.org.br/2025/11/20/lei-do-solo-da-ue-estabelece-que-o-solo-saudavel-e-a-proxima-onda-regulatoria/. Acesso em: dia mês. ano.