ONU declara 2015 como Ano Internacional dos Solos- Release para a imprensa

30/01/2015

Release sobre o Ano Internacional da Ciência do Solo

ONU e SBCS esperam que a iniciativa sirva para mobilizar a sociedade para a import√Ęncia dos solos como parte fundamental do meio ambiente e os perigos que envolvem a degrada√ß√£o deles em todo o mundo.

A ONUOrganiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas decretou 2015 como o Ano Internacional dos Solos e espera que a iniciativa sirva para mobilizar a sociedade para a import√Ęncia dos solos como parte fundamental do meio ambiente e os perigos que envolvem a degrada√ß√£o deles em todo o mundo. No Brasil, as comemora√ß√Ķes sobre o tema est√£o sendo incentivados pela SBCS -Sociedade Brasileira de Ci√™ncia do Solo, uma das mais antigas e tradicionais sociedades cient√≠ficas do Brasil.

A Sociedade Brasileira de Ci√™ncia do Solo re√ļne mais de mil pesquisadores de todas as universidades e institui√ß√Ķes de pesquisa e extens√£o do pa√≠s. Al√©m de promover eventos para circula√ß√£o dos conhecimentos sobre os solos, a SBCS edita livros, um Boletim Informativo e a Revista Brasileira de Ci√™ncia do Solo . ‚ÄúA Ci√™ncia do Solo brasileira √© uma das mais competentes do mundo e uma refer√™ncia para solos tropicais na Am√©rica Latina e √Āfrica. No entanto, ainda temos ainda dificuldades em sermos ouvidos e inseridos em processos de tomada de decis√£o para o uso correto dos solos no Brasil‚ÄĚ, lamenta o pesquisador Gon√ßalo de Farias, Presidente da SBCS. Estimulando o debate sobre o tema, a SBCS espera que a sociedade brasileira e principalmente gestores p√ļblicos, imprensa e formadores de opini√£o atentem para os problemas causados pela degrada√ß√£o dos solos na economia e no ambiente natural como um todo

Os solos sustentam n√£o apenas a produ√ß√£o agropecu√°ria, mas tamb√©m as cidades e empreendimentos industriais como a minera√ß√£o.‚ÄĚ Infelizmente as pessoas s√≥ pensam nos solos quando acontecem as trag√©dias como os deslizamentos de terra causados por chuvas e a contamina√ß√£o provocadas por excessos de aditivos qu√≠micos ou minera√ß√£o. Ainda assim as informa√ß√Ķes s√£o apenas factuais e n√£o aprofundam no tema considerando o solo como o meio onde acontecem as trag√©dias sociais ou ambientais‚ÄĚ, diz Gon√ßalo Farias.

A degradação do solo é reconhecida como componente de risco para manutenção da vida no planeta. Enquanto isso, o aumento da população implica em maior demanda por alimentos e matéria prima vegetal. Depara-se assim com o dilema de, ao mesmo tempo, produzir alimentos, reduzir os impactos ambientais causados pelo uso intensivo do solo, recuperar grande parte dos recursos naturais já degradados e, ainda, preservar os sistemas naturais remanescentes.

A import√Ęncia do tema: os solos e a economia

Milh√Ķes de hectares de terra est√£o tornando-se improdutiva no Brasil devido ao mal uso dos solos

Os solos s√£o cruciais para a vida na terra, com grande influ√™ncia sobre o meio ambiente, as economias regionais e globais e as aglomera√ß√Ķes urbanas e industriais. At√© mesmo a redu√ß√£o da capacidade de armazenamento dos reservat√≥rios de √°gua no Brasil relacionam-se com a degrada√ß√£o dos solos. Dentre as suas diversas fun√ß√Ķes, proporciona, direta ou indiretamente, mais de 95% da produ√ß√£o mundial de alimentos. No entanto, esta fina e fr√°gil camada que recobre a superf√≠cie da Terra e leva milh√Ķes de anos para ser formada pode ser perdida e degradada pela eros√£o em poucos anos de uso, tornando-se improdutiva ou reduzindo sua capacidade de produzir alimentos, pastagens, fibras e biocombust√≠veis para uma popula√ß√£o cada vez maior e mais exigente. No estado de Minas Gerais, por exemplo, estima-se que mais de 40% das √°reas de pastagens estejam degradadas. ¬†No Paran√°, 30% dos cerca de seis milh√Ķes de hectares cultivados necessitam de interven√ß√£o imediata. O processo de degrada√ß√£o j√° est√° impactando a produtividade no Brasil.¬† ¬†‚ÄúS√£o milh√Ķes de hectares de terra tornando-se improdutiva que acabam por empurrar a produ√ß√£o agr√≠cola para novas √°reas de ambientes naturais, como a floresta Amaz√īnica. Isso √© desnecess√°rio pois a ci√™ncia do solo no Brasil √© rica e competente para oferecer alternativas para preven√ß√£o e recupera√ß√£o de √°reas degradadas n√£o apenas pela agropecu√°ria, mas tamb√©m por atividades fortemente degradantes como a minera√ß√£o‚ÄĚ, afirma o professor da Universidade Federal de Vi√ßosa e Secret√°rio Geral da SBCS, Reinaldo Cantarutti.

Outro bom exemplo da import√Ęncia econ√īmica da preserva√ß√£o dos solos s√£o as ¬†perdas resultantes da eros√£o que provocam a redu√ß√£o da capacidade produtiva das terras agr√≠colas; o assoreamento (deposi√ß√£o de part√≠culas s√≥lidas) e redu√ß√£o da capacidade de armazenamento dos reservat√≥rios de √°gua (represas) usados para gera√ß√£o de energia e para abastecimento de grandes cidades a eleva√ß√£o dos custos de tratamento da √°gua; a redu√ß√£o da quantidade e qualidade da √°gua seja para atender as necessidades dos agricultores no campo ou das cidades e ind√ļstrias.

Um ambiente pressionado

A produ√ß√£o agr√≠cola no Brasil crescer√° mais r√°pido que de qualquer outro pa√≠s do mundo na pr√≥xima d√©cada.Esse cen√°rio projeta o aumento da press√£o sobre todos os recursos naturais, incluindo o solo, requerendo a√ß√Ķes urgentes para a conserva√ß√£o dos solos.

Estimativas recentes mostram que as perdas anuais de solo no territ√≥rio brasileiro atingem valores da ordem de 500 milh√Ķes de toneladas de terra e cerca de oito milh√Ķes de toneladas de nitrog√™nio, f√≥sforo e pot√°ssio, nutrientes fornecidos as lavouras para aumento de produ√ß√£o. Essas perdas t√™m impacto direto na economia, em raz√£o do maior custo dos alimentos, uma vez que os nutrientes perdidos precisam ser repostos ao solo para manuten√ß√£o da produtividade das lavouras, e nos recursos naturais pela contamina√ß√£o de corpos de √°gua, influenciando os organismos que neles vivem.

A produ√ß√£o agr√≠cola no Brasil crescer√° mais r√°pido que de qualquer outro pa√≠s do mundo na pr√≥xima d√©cada. A import√Ęncia atual e progn√≥stica da agricultura brasileira deve estar associada ao uso intensivo do solo em sistemas de produ√ß√£o que fazem uso de monoculturas cultivadas em grandes extens√Ķes de terra e que dependem do uso intenso de mecaniza√ß√£o, √°gua, insumos agr√≠colas e do transporte por longas dist√Ęncias. Esse cen√°rio projeta o aumento da press√£o sobre todos os recursos naturais, incluindo o solo, requerendo a√ß√Ķes planejadas da sociedade cient√≠fica brasileira para prover a conscientiza√ß√£o da sociedade e de autoridades para melhor compreender o sistema solo, seu comportamento, potencialidades, limita√ß√Ķes e produtividade esperada frente √†s mudan√ßas clim√°ticas globais e a atual expans√£o da fronteira agr√≠cola para √°reas de solos fr√°geis e/ou pouco conhecidos no pa√≠s, com vistas √† adequada gest√£o territorial, evitando ou mantendo, dentro de limites sustent√°veis, os processos de degrada√ß√£o do solo e ambiental.

A√ß√Ķes predat√≥rias tais como o desmatamento das florestas e destrui√ß√£o de ambientes naturais, a polui√ß√£o das fontes de √°gua pot√°vel e a emiss√£o de gases que contribuem para o aquecimento global, est√£o interligadas aos processos que acontecem no solo. Nele ocorrem muitas rea√ß√Ķes qu√≠micas e transfer√™ncias de mat√©ria e energia, o que o faz respons√°vel pela reten√ß√£o de nutrientes para as plantas e organismos nele presentes, al√©m da reten√ß√£o de subst√Ęncias qu√≠micas e metais pesados, que poderiam ser danosas caso atingissem o len√ßol fre√°tico afetando os alimentos consumidos pelo homem e por animais. Em suma, pode-se dizer que o solo √© a base para a manuten√ß√£o dos recursos naturais: √°gua, ar e organismos (biodiversidade) e seu uso adequado √© exig√™ncia para a sobreviv√™ncia de todos os seres vivos. No entanto, o equil√≠brio do sistema solo-planta-√°gua-atmosfera vem sendo desastrosa e aceleradamente danificado nas √ļltimas d√©cadas, √† medida que se intensifica seu uso.

Atualmente, a degrada√ß√£o do solo e dos recursos naturais encontra-se em est√°gio t√£o avan√ßado em algumas √°reas que especialistas alertam para o fato de que se nenhuma medida for adotada em car√°ter urgente, corre-se o risco de a recupera√ß√£o desses ser muito dif√≠cil ou extremamente dispendiosa. A remo√ß√£o completa da vegeta√ß√£o natural, em especial nas √°reas com grande declividade; a pr√°tica ainda vigente das queimadas; a explora√ß√£o agr√≠cola intensa sem reposi√ß√£o de nutrientes ou da mat√©ria org√Ęnica do solo; o preparo do solo de forma inadequada e o seu revolvimento excessivo; a remo√ß√£o de matas ciliares no entorno dos rios, lagos e lagoas e da vegeta√ß√£o em nascentes , a aloca√ß√£o de √°reas urbanas, industriais ou ainda lix√Ķes e aterros sanit√°rios em locais inadequados e que deviam ser √°reas de preserva√ß√£o, s√£o alguns exemplos de a√ß√Ķes com alto impacto sobre o solo e demais recursos naturais.

A degrada√ß√£o dos solos nas √°reas agr√≠colas, em sua grande maioria, est√° associada √† eros√£o h√≠drica, que √© intensificada pelo cultivo cont√≠nuo e sem pr√°ticas conservacionistas. Esse processo consiste no escoamento da √°gua na superf√≠cie, resultante da sua menor capacidade de se infiltrar, carreando com ela material de solo, em geral removendo a camada mais rica em nutrientes e mat√©ria org√Ęnica do mesmo. Pr√°ticas culturais como a retirada da vegeta√ß√£o natural, ara√ß√£o/gradagem no sentido do declive do terreno, pisoteio excessivo de animais, contribuem para que a eros√£o h√≠drica seja acelerada

Segundo a Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas para Alimenta√ß√£o e Agricultura (FAO) a popula√ß√£o mundial vai crescer dos atuais 7 bilh√Ķes de habitantes para 9,2 bilh√Ķes em 2050, o que vai exigir um aumento na produ√ß√£o de alimentos dos atuais 1,64 bilh√Ķes de toneladas para 2,60 bilh√Ķes no ano de 2050, ou seja, um aumento de 60% na produ√ß√£o de alimentos em apenas 40 anos. Sem d√ļvida nenhuma o solo ser√° a base de sustenta√ß√£o para assegurar o crescimento populacional, entretanto seu uso deve ser associado √† conserva√ß√£o e ao aumento da efici√™ncia dos sistemas de produ√ß√£o agr√≠cola, al√©m da efic√°cia das pol√≠ticas p√ļblicas para gest√£o adequada desse recurso natural.

Aprendendo com o passado

A degrada√ß√£o das terras f√©rteis por eros√£o ou saliniza√ß√£o j√° destruiu imp√©rios no decorrer da hist√≥ria universal. No Brasil, afeta campo e cidades provocando trag√©dias econ√īmicas e sociais.

A hist√≥ria mostra que a degrada√ß√£o das terras f√©rteis por eros√£o ou saliniza√ß√£o, diminuindo a produ√ß√£o de alimentos, foi um dos fatores determinantes na queda de grandes civiliza√ß√Ķes e imp√©rios. Como exemplos a desertifica√ß√£o de grandes √°reas que j√° foram muito produtivas do norte da China e no continente africano e at√© mesmo a queda de civiliza√ß√Ķes pr√©-colombianas nas Am√©ricas. A decad√™ncia do imp√©rio Romano tamb√©m foi relacionada √† destrui√ß√£o extensiva das florestas e ao esgotamento do solo, principalmente pela eros√£o h√≠drica acelerada.

Os registros hist√≥ricos e os diversos fen√īmenos clim√°ticos recentes, que s√£o apontados como indicativos de desequil√≠brio global, mostram que √© urgente a mudan√ßa profunda na rela√ß√£o do homem com os recursos naturais, em especial o solo e a √°gua para garantir a sobreviv√™ncia das futuras gera√ß√Ķes no planeta. Como exemplos podem ser citados: seca prolongada na regi√£o nordeste do Brasil; excesso de chuvas na regi√£o norte, com inunda√ß√£o de grandes √°reas; chuvas de alta intensidade da regi√£o serrana do estado do Rio de Janeiro, trag√©dia com grande preju√≠zo em termos de vidas e para a economia do Estado; a seca dos principais rios que abastecem grande parte da regi√£o metropolitana de S√£o Paulo; e, mais recente, a seca, constatada pela primeira vez na hist√≥ria, da principal nascente do rio S√£o Francisco. Embora apontados como aspectos de clima e relacionados apenas ao recurso natural √°gua, estes fatos n√£o podem ser dissociados do que ocorre com o solo ‚Äď as terras agr√≠colas, a redu√ß√£o da cobertura vegetal e da biodiversidade, a ocupa√ß√£o desordenada do espa√ßo f√≠sico e a redu√ß√£o da superf√≠cie de infiltra√ß√£o da √°gua no espa√ßo urbano.

Curiosamente os impactos negativos da a√ß√£o do homem sobre os recursos naturais, em especial no solo e na √°gua, intensificam-se ainda que a ci√™ncia tenha avan√ßando em conhecimento e na apresenta√ß√£o de solu√ß√Ķes t√©cnicas para esses problemas, no Brasil e no mundo. A Ci√™ncia do Solo sempre se desenvolveu produzindo conhecimento para identificar as melhores formas de manejo dos solos, garantindo o aumento de produ√ß√£o aliado √† conserva√ß√£o das terras agr√≠colas. Nos √ļltimos anos grandes avan√ßos foram alcan√ßados, pelas institui√ß√Ķes de ensino, pesquisa e extens√£o no Brasil, gerando produtos para dar suporte aos produtores e a sociedade em geral, para a utiliza√ß√£o adequada, recupera√ß√£o e preserva√ß√£o dos recursos naturais, incluindo o solo, a √°gua e a biodiversidade.

No entanto, o problema da degrada√ß√£o ambiental vai al√©m da Ci√™ncia do Solo. A solu√ß√£o requer uma mudan√ßa profunda no comportamento da sociedade e nas a√ß√Ķes dos governantes e gestores diversos. √Č preciso mais investimentos na educa√ß√£o b√°sica das novas gera√ß√Ķes; divulgar conhecimento e garantir o aprendizado do mesmo; estimular as boas pr√°ticas de uso e conserva√ß√£o do solo e demais recursos naturais; garantir a seguran√ßa alimentar atrav√©s de pol√≠ticas p√ļblicas voltadas para os produtores e para a sociedade brasileira; aplicar com imparcialidade a legisla√ß√£o ambiental brasileira – tida como uma das mais completas do mundo.

A garantia de um futuro melhor e com qualidade de vida para a humanidade depende, entre outras a√ß√Ķes, da conserva√ß√£o do solo e da √°gua e preserva√ß√£o da biodiversidade. Isto s√≥ ser√° poss√≠vel se a sociedade compreender que o solo √© um corpo vivo e din√Ęmico e n√£o √© apenas um material inerte que serve de sustenta√ß√£o para o crescimento de plantas, moradia de animais e para explora√ß√£o pelos seres humanos.

 

Produção: Sociedade Brasileira de Ciência do Solo

Jornalista responsável: Léa Medeiros MTb 5084

learmedeiros@gmail.com-

Fontes para entrevistas:

Gonçalo Signorelli de Farias- Presidente da SBCS

E-mail: signorelli@iapar.br

Reinaldo Bertola Cantarutti – Secret√°rio Geral da SBCS

E-mail: cantarutti@ufv.br

Release Ano Internacional do Solo SBCS (PDF)