Pedologia brasileira perde José Rosatelli

A SBCS recebeu, com pesar a notícia do falecimento de um dos pioneiros da Pedologia no Brasil, José Silva Rosatelli, dia 19 de novembro, aos 84 anos de idade. Entre as décadas de 1960 e 1990 ele participou dos principais levantamentos de solos no país, contribuindo muito para o conhecimento que temos atualmente.

Natural de Bueno Brandão – MG, Rosatelli concluiu o curso de Engenharia Agronômica na antiga Escola Nacional de Agronomia (ENA), hoje UFRRJ, em 1962. Daí em diante trabalhou em várias instituições governamentais do país, sempre como pedólogo, com destaque para o CEPLAC – Centro de Pesquisa do Cacau (1963/1965); Equipe de Pedologia e Fertilidade dos Solos ( DPFS -Divisão de Pesquisas Pedológicas do Ministério da Agricultura, atualmente Embrapa Solos (1966/68); SUVALE – Superintendência do Vale do São Francisco (1968/72); Projeto RADAM e Projeto RADAMBRASIL (1972/86); IBGE (1986/92), onde se aposentou.

Em 1966, já como técnico da DPFS, participou do último da série de quatro cursos intensivos de “Treinamento para Levantamento de Solos”, organizado pela Divisão de Pedologia e Fertilidade dos Solos, em convênio MA-CONTAP-USAID-ETA, ministrado por técnicos especializados da FAO e por técnicos da DPFS. O foco principal deste treinamento era capacitar pessoal para ampliar o quadro técnico do Ministério da Agricultura, direcionado para trabalhos de levantamento de solos do território nacional, iniciados de forma mais sistematizada nos idos de 1960.

Acumulando vasta experiência em levantamentos pedológicos e interpretação de terras para fins agrícolas em várias regiões do país nas instituições onde passou, Rosatelli foi contratado, em 1973, como Diretor da Divisão de Pedologia (DIPED) do Projeto RADAM, vinculado ao Departamento Nacional de Produção Mineral do Ministério de Minas e Energia, com sede em Belém,PA.

Iniciavam-se então os levantamentos de recursos naturais da região Amazônica, até então muito pouco conhecida quanto aos recursos de geologia, solos, vegetação, geomorfologia, clima e interpretação do uso potencial das terras para fins agrícolas. O trabalho foi pioneiro e desafiador por causa das grandes dificuldades de realizações operacionais, organização e montagem de acampamentos para realização das viagens (operações) de campo. Havia grande precariedade da rede viária e das estruturas essenciais para pernoites e alimentação, além do calor, chuva, malária, entre outras adversidades.

Por outro lado, era a primeira vez que o Brasil trabalhava com imagens de radar americanas (Side Looking Airbone Radar – Slar), para levantamentos de tais recursos naturais no Brasil. Um marco histórico na pedologia nacional. Isto proporcionou o levantamento dos recursos de solos, vegetação, geologia de todo território nacional em escala padronizada, trabalhando na escala 1:250.000 e publicando os mapas gerados na escala 1.1.000.000. Foram publicadas, ainda, nesta mesma escala, aspectos da geomorfologia do país e do uso potencial das terras.

Para a realização de um trabalho de tamanha envergadura, em um espaço de tempo relativamente curto, era necessário ter uma boa equipe. No quesito solos, entra aí o nome do Rosatelli, obviamente contando com todo apoio da Diretoria do RADAM. Ele praticamente montou, formou e dirigiu a equipe de pedólogos da DIPED, recrutando engenheiros agrônomos recém-formados e promovendo os seus treinamentos em serviço imediato de campo e escritório.

Mais tarde, abrangendo trabalhos em todo território Nacional, agora como Projeto RADAMBRASIL, sediado em Salvador, e ainda sob a coordenação do Rosatelli, a DIPED contava com mais de 70 agrônomos, muitos dos quais, após o encerramento das atividades do Projeto em 1986, prosseguiram na carreira, como executores de levantamentos ou como professores e pesquisadores.

Foi assim que Rosatelli praticamente montou, em curto espaço de tempo, talvez a maior equipe de pedólogos existente no país. Como resultado, no final do Projeto em 1986, os recursos de solos do país estavam reconhecidos em escala padronizada, ainda que muito pequena. Estas informações encontram-se disponibilizados no site do IBGE, em mais de 30 volumes, na quase totalidade sob sua coordenação. Certamente que não se pode esquecer aqui, de forma alguma, o trabalho da equipe do Ministério da Agricultura, hoje Centro Nacional de Pesquisa de Solos da Embrapa.

Rosatelli contribuiu ainda, de forma significativa, para a criação do Sistema Brasileiro de Classificação de Solos (SiBCS), materializado apenas no ano de 1999. Nas atividades que precederam o SiBCS, Rosatelli participou  ativamente de alguns dos primeiros e muito importantes levantamentos de solos de abrangência nacional no Ministério da Agricultura: 1) Mapa esquemático dos solos das regiões Norte, Meio-Norte e Centro Oeste do Brasil (Convênio MA-Embrapa/CONTAP/USAID) publicado em 1975 e também conhecido como Projeto Garimpo; 2) Levantamento de reconhecimento de solos do sul do estado de Mato Grosso (Convênio MA-DPP/INCRA CONTAP/USAID) publicado em 1971.

Através dos levantamentos executados pelos Projetos RADAM e Projeto RADAMBRASIL sob seu comando, trouxe contribuições tanto no avanço do conhecimento e cartografia de solos, quanto no avanço e aperfeiçoamento de inúmeras técnicas de mapeamento como do uso sistemático das imagens de radar para as diversas ações e mapeamento, das técnicas de correlação de solos com ciências afins como geologia, geomorfologia e vegetação.

No aspecto pessoal, há que se salientar que o Rosatelli era pessoa de poucas palavras e risos, reservado para se comunicar em público, mas profissional de lisura invejável, compromissado e às vezes bastante rigoroso com seus comandados para que o trabalho fosse bem executado.

Por tudo isto, o que não é pouco, alguns de nós que convivemos com ele na DIPED do RADAM, decidimos lhe prestar esta singela, mas justa homenagem com esta publicação na SBCS. Missão cumprida Rosa! Descanse em paz!

Na foto, Rosatelli, ao centro, de camisa vermelha, em Sumidouro, MT durante levantamento de solos no projeto Garimpo, nos anos 1960.